Carro verde? Só se a Bolívia deixar

O esportivo Tesla: a energia que move o elétrico é armazenada em baterias de íon lítiotecnologia

As maiores reservas mundiais de lítio, um componente essencial das baterias, estão no país de Evo Morales - e ninguém sabe quando e como elas serão exploradas .

José Alberto Gonçalves
Revista Exame - 07/04/2010

As minas de Potosí, no sudoeste da Bolívia, forneceram milhões de toneladas de prata à Espanha nos séculos 16 e 17. Foi graças em grande parte à prata de Potosí que o país ibérico dominou os mares e se tornou a principal potência europeia da época. É também no Departamento de Potosí, uma das regiões mais pobres da Bolívia, que se localiza um dos mais pitorescos cartões-postais do país, a salina de Uyuni, um imenso deserto de sal que contém a maior jazida de lítio da Terra. Essa informação seria apenas mais uma curiosidade geológica se o lítio não fosse hoje um dos recursos naturais mais importantes no combate às mudanças climáticas. O mineral é a principal matéria- prima na fabricação das baterias que hoje equipam celulares, laptops e também os tão falados carros elétricos. Entre 40% e 50% das reservas mundiais do mineral estão localizadas na Bolívia. A maior parte delas ainda não foi explorada - e ninguém sabe dizer com certeza quando e como o será. O governo do presidente Evo Morales provocou alvoroço no mercado de combustíveis ao nacionalizar refinarias e campos de petróleo e gás em 2006. Analistas de energia e da economia verde temem uma situação semelhante em relação ao lítio. Será que a Bolívia vai ser um obstáculo no caminho dos carros elétricos?

Não faz muito tempo que o lítio se tornou um recurso cobiçado pela indústria de baterias. Quando laptops e celulares começaram a ganhar popularidade, ainda eram comuns as baterias feitas com as ligas de níquel e cádmio. Mas essa combinação, além de pouco eficiente, pode representar perigo para a saúde dos consumidores. Por ser um dos metais mais leves da natureza, pouco tóxico e quase totalmente reciclável e por gerar o dobro de energia em relação ao níquel, o lítio foi uma mão na luva. Hoje, a maioria dos eletroeletrônicos, e também os carros elétricos e híbridos, leva baterias com o novo material. "As baterias de lítio podem ser instaladas com impacto mínimo no peso e com pouco ou nenhum comprometimento do espaço para carga no veículo", diz Tom Watson, vice-presidente de tecnologia da divisão de baterias para carros híbridos da americana Johnson Controls.

Entre os desafios enfrentados pelas montadoras para baixar custos e impulsionar de modo mais vigoroso as vendas de carros elétricos e híbridos, dois referem- se diretamente às baterias. Um deles é reduzir os custos das baterias de íons de lítio, que podem representar até metade do custo de um elétrico (a bateria do Volt, híbrido que a GM lançará no final deste ano, custa até 15 000 dólares, quase 40% do preço previsto para o modelo). Para cortar custos, a saída é aumentar a escala de comercialização desses veículos com incentivos fiscais, como já acontece nos Estados Unidos, de modo que permita à indústria ampliar suas linhas de produção de baterias. O outro desafio é diversificar as fontes de fornecimento do lítio. "Nos próximos dez anos ou mais, a demanda poderá ser atendida tranquilamente com as reservas da Argentina e do Chile", avalia Edward R. Anderson, presidente do TRU Group, consultoria americana especializada nos negócios com lítio. E depois? Aí a Bolívia entra em cena.

Segundo o departamento de pesquisas geológicas do governo americano, a salina de Uyuni possui 9 milhões de toneladas de lítio, ou 40% das reservas do planeta, estimadas em 23 milhões de toneladas. Nas contas da Corporação Mineira da Bolívia (Comibol), estatal responsável pelo setor de mineração, as reservas do país podem atingir impressionantes 100 milhões de toneladas. A Bolívia tem recebido nos últimos meses executivos de multinacionais japonesas, como a Mitsubishi e a Sumitomo, da sulcoreana LG e do grupo francês Bolloré, interessados em negociar parcerias com o governo local para exploração e processamento do minério. "As políticas estatizantes que o país pretende aplicar a toda a indústria são um problema grave", diz Carlos Alberto López, ex-ministro boliviano de Energia e consultor da Cambridge Energy Research Associates, um dos mais importantes centros de pesquisas energéticas do mundo.

López parece ter razão quando se toma como referência o episódio da nacionalização do setor de petróleo e gás natural. A situação fomentou uma atmosfera de insegurança jurídica entre potenciais investidores. Novos elementos de insegurança foram adicionados com a aprovação, em 2009, da nova Constituição da Bolívia - que prevê a consulta a grupos indígenas em todas as etapas de instalação de um projeto de extração de recursos naturais em suas terras - e com a decisão do governo de deter 100% do controle da companhia responsável pela extração e pelo processamento do lítio. Mas Morales também tem sua dose de pragmatismo, como observa o cientista político Eduardo Viola, da Universidade de Brasília. "A tendência do governo boliviano é estar numa posição de força para negociar, mas eles não têm capital nem capacidade gerencial para realizar a exploração do lítio em escala significativa. Isso talvez os fará se tornar mais realistas e aceitar participação maior e mais garantida do capital estrangeiro."

Apesar dos investidores internacionais, na Bolívia as expectativas quanto ao potencial econômico do lítio lembram o frenesi causado pelo pré-sal no Brasil. O lítio é um dos principais temas das eleições para governador e prefeito que ocorrerão no início de abril, especialmente no Departamento de Potosí, onde a exploração do metal é vista como a grande esperança de vencer a pobreza e desenvolver a região. Tão substancial se tornou o assunto que, após protestos da população, Evo Morales anulou o decreto que criava a estatal responsável pela exploração do lítio e de outros recursos minerais de Uyuni. A mobilização pressionou Morales a transferir a sede da estatal para Potosí, mas até o momento o presidente não decidiu como resolver a situação. O projeto piloto deve ter início até o fim deste semestre, com produção mensal de 40 toneladas. Já a unidade industrial terá capacidade para produzir anualmente 30 000 toneladas de carbonato de lítio. Sua construção, com investimento previsto de 350 milhões de dólares, deverá ocorrer até 2013, mas dependerá de negociações incertas com bancos multilaterais e de desenvolvimento, entre eles o BNDES. Para convencer os bancos a aprovar o crédito, o governo oferece condições privilegiadas nas negociações para a compra de outros produtos que também serão extraídos de Uyuni, como o potássio. O mineral, abundante na salina boliviana, interessa particularmente aos agricultores, por ser um dos três componentes básicos dos fertilizantes nitrogenados (o Brasil importa 92% do potássio que consome).

Hoje, o lítio usado nas baterias é extraído principalmente de uma reserva no deserto do Atacama, no norte do Chile, e de jazidas localizadas na Argentina, nos Estados Unidos, na Austrália e na China. Dada a existência de poucas fontes do mineral, a indústria de baterias movimenta- se para desde já assegurar matériaprima futura para um mercado que deverá somar até 60 bilhões de dólares em 2020, segundo estudo publicado em janeiro pela consultoria Boston Consulting Group (BCG). A trading Toyota Tsusho, do Japão, fechou acordo em janeiro com a australiana Orocobre Ltd. para assegurar lítio de minas no norte da Argentina, num negócio superior a 100 milhões de dólares. Paralelamente à ampliação do consumo, o perfil da demanda também será cada vez mais dominado pela indústria de baterias. Hoje, elas respondem por 14% da produção. Na próxima década, isso deve passar para 39%, projeta o TRU Group. Uma boa parcela desse incremento será motivada pela maior presença no mercado dos carros elétricos e híbridos com bateria de lítio, que representarão em torno de 20% dos 55 milhões de automóveis comercializados em 2020, segundo estimativa do BCG.

Considere um laptop. De todos os itens envolvidos em sua fabricação - processador, memória, tela, discos rígidos -, o que apresentou menor evolução na última década foi justamente a bateria. Os avanços na composição química e na tecnologia de armazenamento de energia caminham de forma lenta. É provável, portanto, que o lítio seja a solução mais eficiente num futuro próximo. Ou seja: para que os tanques de gasolina sejam substituídos por baterias, o papel da Bolívia será decisivo - para o bem ou para o mal.

retirado do site : planetasustentavel.abril.com.br

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